Bisol: “Gosto da vida. E vou morrer gostando da vida”

José Paulo Bisol partiu na manhã deste sábado (26), deixando um importante legado enquanto homem público e ser humano


Por Katia Marko, no jornal Brasil de Fato


Foi na minha infância quando vi pela primeira vez José Paulo Bisol. Ele apresentava o quadro local do programa TV Mulher, pela TV Gaúcha (hoje RBS TV), junto com Balala Campos, entre os anos de 1980 e 1986. Me chamava a atenção os gestos largos, as falas apaixonadas, os “escândalos”, como ele mesmo definiu em entrevista para a TV Senado.


Paixão, rebeldia, ética e sensibilidade são algumas características que podemos dizer forjaram sua existência e foram alvo de grande admiração e potentes ataques. Principalmente vindos da imprensa, a mesma onde se tornou conhecido e veio a ser eleito senador, tendo atuado na Assembleia Nacional Constituinte (1987-88). E da qual ganhou gordas indenizações por danos morais que possibilitaram, segundo ele, adquirir a casa que passaria seus últimos anos, na cidade de Osório, com sua esposa Vera Lúcia Zanette.

O jornal Zero Hora, por exemplo, foi um dos jornais condenados, em 2001. O ex-senador recebeu uma indenização de R$ 1.191.088,00, o equivalente a 7.960 salários mínimos. Segundo matéria do Conjur, no dia 30 de junho de 1994, o jornal Zero Hora iniciou uma série de reportagens consideradas ofensivas pelo ex-senador, então candidato à vice-presidência da República pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Foram publicados 58 textos jornalísticos contendo acusações de que Bisol teria manipulado verbas orçamentárias e superfaturado emendas para obras que beneficiavam a fazenda do ex-senador.


O jornal publicou ainda que o candidato teria se aposentado com apenas sete meses de atividade como desembargador; praticado nepotismo e conseguido empréstimo privilegiado da Caixa Econômica estadual, usando da sua influência política. Ao mover a ação de indenização por danos morais contra o jornal, a defesa de Bisol alegou que todas as acusações foram feitas sem prova alguma e causaram prejuízos irreparáveis, inclusive sua renúncia à candidatura à vice-presidência da República.

Também foram condenados o Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense e a revista Istoé, pelo mesmo motivo.

“Sempre fui um rebelde”


José Paulo Bisol nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 22 de outubro de 1928. É filho de Fortunato Bisol e de Maria Rossato Bisol. Casou-se com Iolanda Bisol, com quem teve três filhos, Tula, Ricardo e Jairo. Tem nove netos e um bisneto. “Sempre fui um rebelde. Quer dizer, sempre estive em desacordo com o mundo. Estou sempre do lado de lá do comum das coisas. Eu não tenho ajuste. Nunca tive”, declarou em uma entrevista ao Sul21, em 2011.


Uma das características ressaltadas por ele mesmo, quando busca nos apresentar uma definição para sua vida, é a multiplicidade. “Eu nunca descobri quem eu sou. Eu sei que eu sou múltiplo e nem tenho ideia da minha multiplicidade”.

Com certeza, essa é uma palavra que lhe define bem: múltiplo. E podemos afirmar que Bisol participou dos mais importantes momentos políticos do nosso país desde a redemocratização. E como ele mesmo conta numa entrevista pra TV Senado, sua vida pública e de orador iniciou aos 10 anos, quando sua mãe pediu para fazer um discurso num casamento. Desde que subiu pela primeira vez naquela cadeira e discursou, pegou gosto e não parou mais.

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Da Academia à política, uma história de ética


Conforme uma ampla bibliografia publicada no CPDOC - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Bisol se formou em Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Porto Alegre em 1954. Dois anos depois, iniciou longa carreira na magistratura gaúcha, sendo mais tarde promovido a juiz de direito, função que exerceu na capital gaúcha e em várias cidades do interior do estado.


Em 1966 tornou-se professor de introdução ao estudo do Direito na Fundação Universitária de Caxias do Sul (RS), onde ficou até 1973. Em 1971, foi contratado para lecionar a mesma cadeira na Faculdade de Direito do Instituto Ritter dos Reis, tendo também exercido o magistério na Escola Superior de Preparação à Magistratura, da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul.


De 1974 a 1976 trabalhou como cronista esportivo na TV Educativa de Porto Alegre, e em 1975 tornou-se juiz de alçada. Em 1978, foi promovido a desembargador. Entre 1979 e 1980, foi diretor-adjunto da Rádio e TV Gaúcha, onde apresentou o programa TV Mulher. Graduado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1982, foi ainda colunista do jornal Zero Hora.


Iniciou sua carreira política em novembro de 1982, quando concorreu a uma cadeira de deputado estadual na legenda do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Eleito, foi empossado na Assembleia Legislativa gaúcha em fevereiro de 1983, tornando-se vice-líder da bancada de seu partido e vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Em 1986, foi eleito líder do PMDB e assumiu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça.


No pleito de novembro desse mesmo ano, candidatou-se a senador constituinte pelo Rio Grande do Sul, sempre na legenda peemedebista. Eleito com o apoio da Rede Brasil Sul de Comunicações, assumiu sua cadeira em fevereiro de 1987, logo após ter concluído o mandato estadual, quando tiveram início os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Foi relator da Comissão da Soberania e dos Direitos e Garantias do Homem e da Mulher, além de membro da Comissão de Sistematização.

Em junho de 1988, ingressou no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que foi criado naquele mês reunindo sobretudo parlamentares egressos do PMDB, descontentes com as posições da cúpula peemedebista na Constituinte. Promulgada a nova Carta Constitucional em 5 de outubro seguinte, voltou-se para os trabalhos ordinários do Senado Federal.


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As históricas campanhas presidenciais de 1989 e de 1994


Como Bisol mesmo diz em entrevista à TV Senado, não houve na história campanha eleitoral mais bonita do que as da Frente Brasil Popular em 1989 e 1994. “Foram campanhas de música no ouvido e criança no colo”, lembrando dos comícios com muita música e a participação de famílias inteiras, com muitas crianças.

Em novembro de 1989 ocorreu a primeira eleição direta para a Presidência da República depois do fim do regime militar. Em maio, Bisol foi convidado para disputar a vice-presidência da República na chapa da Frente Brasil Popular, coligação de esquerda formada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), e encabeçada pelo deputado federal Luís Inácio Lula da Silva, do PT.


Aceitou a indicação, e veio a se filiar ao PSB dois meses depois. Já como candidato, em setembro de 1989 defendeu as ocupações de terras ocorridas no Rio Grande do Sul. Argumentava que a reforma agrária era um dispositivo constitucional que, ao não ser cumprido, legitimava a atitude do movimento dos sem-terra.


Em novembro, dias antes da realização do pleito, foi acusado pelo candidato do Partido Democrático Trabalhista (PDT) à presidência, Leonel Brizola, de ter-se beneficiado de empréstimos do Banco do Brasil para comprar uma fazenda no município de Buritis, em Minas Gerais. Ainda no mesmo período, o jornal Folha de S. Paulo revelou que nem todos os empregados da fazenda de Bisol tinham registro em carteira, conforme determinava a Constituição federal.