Chegaram uns livros aqui!

Por Fiodora Terra


Chegaram uns livros aqui.


Euzinha já havia escrito muitos contos, mas aquele era o primeiro publicado. E o livro era bonito. Tinha até a foto dela, o nome, tudo. E a Euzinha entrou em pânico: os livros tinham que ser enviados pelos Correios. Mas e o endereço? Isolada nas entranhas da Mantiqueira, tinha até internet à cabo. Correios não.


Então a Euzinha lembrou-se da irmã que a visitaria em breve e que vivia lá num pedacinho da África, no sul das Minas Gerais. Com certeza lhe traria os livros e mataria a saudade.Não teve dúvidas. Sem consultar, pediu que enviassem tudo para lá, onde não tem internet à cabo, mas tem Correios.

Mas a irmã da Euzinha não gostou muito da ideia não. Pode mandar quantos livros quiser para cá, mas aí nessas entranhas da Mantiqueira eu não vou - disse. Meu negócio, todos sabem, é sol, mar, praia, calor e cerveja. Vem você para cá. O caminho até aqui é mais bonito. Levante-se bem cedinho, pegue a estrada de terra que dá no bar do Mineiro. Chegando lá, come pastel com aquele café docinho e, depois, é só seguir adiante. Vem sem pressa, subindo, subindo, depois descendo, descendo e subindo novamente. E enquanto surfas nessas ondas da Mantiqueira vem pensando, imaginando, falando, construindo outras estórias, outros mundos, outra gente. E quando as ondas da Mantiqueira se transformarem em uma suave marola, esbranquiçada pelas flores dos cafezais, pode estar certa que chegou. E eu estarei aqui. Te esperando. Com mandioca frita, couve, feijão e os teus livros.


E a Euzinha ficou feliz e pensou no quanto era boa a ideia. Porque estando lá poderiam visitar a casa assombrada da Juréia. Subir ao Alto dos Anjos para ver se encontravam as almas dos soldados – mortos ainda na segunda Guerra - que acompanhavam a tia quando voltava sozinha lá das festanças da cidade. Poderiam também visitar a roça onde viveu a mãe. Rever a janela através da qual se via a mulher de cinco metros que vagava pelo pasto nas noites de lua cheia. E as melancias que nasciam sem serem plantadas e que matavam a sede dos que semeavam batatas e feijão. Quem sabe não encontravam por lá os restos estraçalhados dessas lembranças? E o melhor de tudo é que, em cada ida e cada volta, haveria sempre o bom café do Capaiz – aquele que só ele sabe fazer e somente nós sabemos gostar.

E o aroma do café do Capaiz selou de vez o pacto entre as irmãs. Então tá combinado – disse a Euzinha. Assim que chegar a encomenda, avisa-me.

Mas não chegava. E no lugar da Euzinha ficar preocupada, quem ficava era a irmã. Você colocou endereço errado – dizia. Já aconteceu antes, agora errou novamente. Não – respondia a Euzinha. Conferi umas mil vezes. Essas coisas são assim mesmo. Chega aqui, chega lá, demora para uns, para outros é mais rápido. Como tudo nessa viagem.

Os dias foram passando e nada dos livros. Onde estariam? E, então, a Euzinha matou a charada. Extraviados. Foram extraviados. Para a África. Será? - perguntou a irmã. Tenho certeza. Esqueceram de colocar que era Cabo Verde das Minas Gerais. Não deu outra. Foi parar no outro continente. E agora? Agora, vamos torcer para que alguém como Mia os receba. Mia? Quem é Mia? Sua gata? Não, minha gata mia, mas chama-se Cora. E o gato é o Saramago. Você sabe muito bem disso! Então esse Mia não é um gato? É um gato. Um gato que escreve. E assim a Euzinha deu por perdidos os livros.

E ontem quando a Euzinha, como de hábito, lia as notícias de leite condensado, chicletes, bandido cantando Agnus Dei em churrascaria, o telefone móvel indicou, com um ruído, uma nova mensagem. Mensagem desde um número desconhecido, distante. De outro continente e que dizia assim: Sra. Euzinha, chegaram uns livros aqui. Na verdade, cinco livros que não me pertencem. Chegaram ontem. Como estou acostumado a receber livros, fui logo abrindo. Li todos os cinco e só depois percebi que eram iguais. O que faço com eles? Att. Mia. E Euzinha não pensou nem um minuto para responder: guarde-os, por favor, que eu já estou indo.

E foi assim que Euzinha, pegando a velha mochila, meio cheia meio vazia, tomou a direção das entranhas da Mantiqueira, rumo ao bar do Mineiro, com destino a Cabo Verde. Lá do outro lado do mundo. Na África. Foi buscar os livros.


Agradeço aos queridos Roberto Souza Sá Barreto, Rosane Lima, Andretos Banhos, Max, Roger, Luciana Pezzi. Obrigada


Se alguém tiver interesse, segue o link da Editora Terra Redonda: https://www.terraredondaeditora.com.br/livros


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