Considerações sobre Noite de Dioniso

Por Edmar Guimarães, no blog O secreto nome do sol



Pela capa, assim se inicia a leitura de certos livros de poemas, incitando o leitor a possibilidades para além do conteúdo interior, e promovendo o jogo entre o referente e o referencial. Noite de Dioniso, de Alexandre Bonfim, dá-nos um exemplo disso. O autor consegue reunir no livro poemas e artes plásticas, duas linguagens que se complementam e enriquecem a leitura. Na imagem externa é apresentada a figura de um efebo, cuja parte superior do rosto é formada por pássaros de diferentes espécies, numa organização de elementos díspares; o dorso seccionado, como a se constituir em parte autônomo, amplia as possibilidades, e do espaço em branco flutuam forma circulares que se interseccionam formando espiral matizadas com alguns tons velados do arco-íris. Dentro do livro, entre os poemas, uma outra ilustração, de procedimento análogo, refere-se a um outro efebo, ladeado de flores deformadas, manchas escuras, figuras que criam ilusões visuais. Assim, os elementos visual e verbal se articulam entre si, e significativos símbolos da geometria milenar se unem de forma ambivalente ao arsenal metafórico das imagens de grande força erótica, sensorial e mítica, contribuindo para intensidade poética do livro.


Fica patente, desde a capa e a outra ilustração, já referida, a filiação criativa da obra ao universo da fantasia. As ilustrações, com certo sabor maneirista, visto que compartilham mais de um procedimento com antiga escola de pintura, não são indicativos de que a obra é composta de poemas maneiristas, pois não o é, embora em um dos poemas haja também um jogo paradoxal de palavras, semelhante ao usado pelos poetas maneiristas como citaremos posteriormente.

O poeta, já no primeiro poema, “Nudez”, busca “clarificar os objetos/adensando-os/ em pura fantasia ”, para perceber a sua “intensa presença”, como a buscar uma via de descoberta pelos caminhos da fantasia, pelos quais tudo se torna possível, tangível. No mesmo poema surge o “espelho estilhaçado/ pela luz das flores”, num metaforizar constante, quebrar o espelho é destruir a imagem e transformá-la em buquê, e assim, vê-la de um outro viés, ou o espelho se quebrou com a luz das flores, ou seja, a imagem delas é que são os estilhaços? Todos os poemas são fortemente metafóricos, criando ambiguidades, abrindo largo espaço para a imaginação.


Seria um trabalho malogrado buscar entender exatamente os poemas de Bonafim, de um ângulo racional, pois as imagens cortantes, a polaridade entre nudez e hermetismo indicam que a Noite de Dioniso é a sagração dos mistérios, da magia, da sensualidade “francamente” aberta, pertence ao reino das imagens vistas com olhos de vinho, inebriadas pelo erotismo, como se a posse da nudez revelasse a sua impossibilidade sugerida em muitas das imagens, pois a dor e a suavidade atravessam todos os textos, indicando que o objeto almejado pode ser alcançado, talvez, somente pela arte e a fulguração das imagens, sob as bênçãos de um deus fictício, tornando a tentativa de posse mais problemática.


Noite de Dioniso forma um labirinto de sentidos, expressos pelos diferentes símbolos que se remetem tanto à leveza – o colibri, como ao rústico – o búfalo, e o leão em sua simbologia de força solar, igualmente outros símbolos, os quais, para o entendimento de seus sentidos nesta obra, demandaria um estudo extenso, já que alguns deles ganham novos sentidos, ou são erotizados, “Um búfalo/ contra o sol, / o rapaz desnudo”. Além desse, o leão e o cavalo se apresentam com toda maciça virilidade, para além do animal, metamorfoseados.


Além do manejo competente de símbolos, e seres mitológicos, chama a atenção em toda obra o intenso erotismo homoafetivo, pois não se trata de um o outro texto, como sói comum acontecer em outras obras, mas o livro inteiro é dedicado a essa forma de amar que pode implicar tanto em prazer como em sofrimento, em desejo e dor, por isso, imagens como: “com ímpeto selvagem/ esse animal apunhala/ meu corpo/ meus sonhos/os nomes todos de minha agonia”; “ardoroso desejo flecha a cravar-me/ no martírio do meu sangue” dentre tantos outros exemplos, dão bem a medida da intensidade erótica do livro, já que a força sexual, uma das mais poderosas da natureza, aqui se coaduna a um objeto mais específico: a beleza do jovem desnudo cantado em toda a sua verdade humana, mas também violenta, dionisíaca: “Gosto de amar assim/como quem mastiga/carne crua/como quem tritura/ sem piedade nem dentes/ lâmina atroz”, poema: “A arte de amar”.


É curioso que o livro se intitula Noite de Dioniso, mas os poemas em quase toda a sua totalidade são solares, marcados pelo brilho. Possivelmente seja essa noite a do enígma, do labirinto, do sentido mágico de que a vida está imbuída, em umas últimas palavras, do dentro que se manifesta em metáforas.


Outra característica que chama a atenção, o substantivo “amor”, o “terrible e suave” de acordo com Leonardo da Vinci, só aparecerá nos poemas finais, a partir da página 75, mas, como não poderia deixar de ser, no sentido carnal, embora possa conotar possível união de desejo erótico e do amor, assim, a palavra flecha, presente no referido poema e em alguns outros do livro, pode ser lida como metonímia de Cupido.


O atento trabalho com a linguagem e a escolha das palavras, organizadas em verso curtos, dando um tom mais incisivo à proposta das imagens cultivadas pelo poeta, são notáveis, como nos versos “sobre meu peito/o teu peito/ Duas pedras/ agudas/ a ferir-me”. Poder-se-ia retirar vários exemplos como estes em toda obra. No poema “Teus pés” dividido em sete partes, percebemos o engenhoso trabalho com a linguagem: o pronome e o substantivo vão mudando de posição nos dísticos que compõem a série inicial, aludindo a passos, e as imagens dos pés, em um momento, terrenas, adquirem certo voo: “Teus pés iluminados sobre a relva”. Assim os pés tornam-se símiles de asas. Referente, ainda, à construção dos versos, há no poema “Descrição do Desejo” algumas linhas paradoxais que lembram a poesia maneirista. Este recurso é utilizado unicamente nesse poema: “Cântaro/ que cheio/nunca se completa/ que repleto/sempre se ausenta/ Fruto que maduro/nunca é pleno”.


A escolha possivelmente planejada de certas palavras, como no caso do adjetivo “vertical”, além de sugerir a ascensão, a divinização do objeto cantado, pode receber outra significação, pois é usado tanto no início de uma linha de poema, ou junto a outras palavras, parece indicar um sentido fálico, uma ereção, já que aparece reiteradamente em alguns poemas. Esse trabalho com as palavras não é um recurso isolado, acontece em outros versos um uso semelhante, também com fonemas que atuam por dentro da imagem: “Beleza dos teus pés/esculpidos pelo pólen. Observa-se que a oclusiva bilabial surda “p” está distribuída nos versos como a suavizar os passos e repercutindo o substantivo “pé”, quase dando a ideia de um andar felino.


Enfim, como se pode perceber no tom dessas considerações, trata-se da leitura pessoal de um leitor curioso e sem a pretensão de explicar os poemas, pois, se assim o fosse seria improdutivo tal pleito, já que, como se sabe, é quase jargão que “poesia não se explica, sente-se”.


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Edmar Guimarães é poeta.


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Referências:

HOCKE, R. Gustav, O maneirismo: o mundo como labirinto

BONAFIM, Alexandre, Noite de Dioniso.