Dom Paulo revive no livro "O Cardeal e o Repórter", de Ricardo Carvalho

Ricardo Kotscho, no UOL, 15/12/2020


Balaio do Kotscho publica post entusiasmado sobre o livro lançado pela Terra Redonda Editora


Para lembrar o quarto ano da morte de dom Paulo Evaristo Arns, o jornalista Ricardo Carvalho lançou nesta segunda-feira a segunda edição do livro "O Cardeal e o Repórter" (Terra Redonda Editora), em que narra os bastidores das reportagens que fez com o cardeal, de 1976 a 1982, quando trabalhava na Folha.

O livro tem dois novos capítulos. No primeiro, Carvalho relata o início dos funerais de dom Paulo, no dia 14 de dezembro de 2016, quando uma ordem do atual arcebispo, dom Odilo Sherer, não permitiu que os fiéis pudessem chegar perto do corpo do cardeal emérito, que fez história em São Paulo, na resistência à ditadura militar (1964-1985).

Só depois de muita gritaria e empurra-empurra, na nave central da catedral, o povo conseguiu prestar sua última homenagem ao cardeal, que sempre esteve ao lado dele.

No segundo capítulo inédito, Ricardo Carvalho levanta uma questão, no mínimo, polêmica: a legitimidade da imagem do fundador da Opus Dei, Josemaria Escrivá, estar exposta na catedral desde 2012, por ordem de dom Odilo. O repórter se surpreendeu com a influência que a Opus Dei exerce na arquidiocese de São Paulo.

"Enviei a ele algumas perguntas sobre as minhas dúvidas, que foram gentilmente respondidas. Só não me convenceram...", diz o repórter.

As perguntas e as respostas estão no livro, que pode ser comprado diretamente da editora em duas versões (e-book e impresso) no endereço: contato@terraredondaeditora.com.br

Como eu também estava lá na catedral quando o corpo de dom Paulo chegou, Ricardo Carvalho, meu colega de muitas coberturas jornalísticas ao longo do último meio século, me pediu para escrever um pequeno texto sobre as minhas lembranças, que ele publicou no livro e pode ser lido aqui abaixo.


***


A chegada e a partida: dois bispos duas igrejas

Ricardo Kotscho


"A partida de dom Paulo Evaristo Arns e a chegada de dom Odilo Scherer, em 2016, marcaram uma profunda mudança na vida dos católicos de São Paulo.

É como se eles pertencessem a duas igrejas diferentes.

A entrada do corpo de dom Paulo na Catedral Metropolitana de São Paulo, em procissão solene, na noite de 14 de dezembro, foi uma verdadeira consagração, com o povo humilde em pé, não parando de aplaudir e gritar loas ao cardeal.

Quando o seu sucessor entrou na catedral, seguido por um cortejo com dezenas de padres, fez-se de repente um obsequioso silêncio, marcando a passagem da igreja dos pobres, dos perseguidos, dos sem-teto e dos sem tudo, para a igreja da sacristia, burocrática e fria, distante da realidade do seu povo.

Poucos dias antes, dom Paulo havia celebrado ali mesmo os seus 71 anos de sacerdócio, uma grande festa de fé e alegria, com toda gente irmanada, cantando e rezando, a mesma que chorava agora a sua morte, aos 95 anos.

Quando a urna foi aberta, padre Júlio Lancellotti, vigário episcopal dos moradores de rua, beijou a testa de dom Paulo, selando ali uma união que marcou os 28 anos de luta por justiça e dignidade para todos à frente da igreja de São Paulo (1970-1998).

Ao final da missa de dom Odilo, como registrou José Maria Mayrink no Estadão do dia seguinte, o povo tentou se aproximar do corpo de dom Paulo, mas, por causa da presença de autoridades, o acesso estava impedido. "O padre Júlio Lancellotti e Ricardo Carvalho, biógrafo de dom Paulo, no entanto, intermediaram a situação e permitiram, por fim, que os fiéis se acercassem da urna".

Naquele momento mesmo, eu senti que a minha igreja não seria mais a mesma. Partia para sempre meu amigo dom Paulo, o pastor que colocou sua vida em risco para denunciar ao mundo as torturas e as mortes perpetradas pela ditadura militar.

Mas o seu exemplo ficou, como mostrou ainda agora, em agosto de 2020, a carta assinada por 152 bispos, enviada ao papa Francisco, para relatar os crimes praticados contra os direitos humanos pelo atual governo brasileiro.

Em São Paulo, o cardeal-arcebispo em exercício recusou-se a assinar o documento, assim como a cúpula da CNBB.

Os tempos haviam mudado. Vivo fosse, tenho certeza de que Dom Paulo seria o primeiro a assinar a carta.

Falta alguém para nos lembrar aquela palavra mágica com que ele sempre se despedia, para nos animar:

"Coragem!


***


No dia do lançamento, Ricardo Carvalho recebeu mensagem de Carol Arns, sobrinha neta do cardeal, em que ela diz:


"Orgulho de você, Ricardo, que mantém viva a marca mais significativa de um líder que viveu pelo povo, a sua coragem. E nós, de esperança em esperança, seguimos sempre firmes, acreditando num futuro mais justo e melhor. Em nome da Família Arns agradeço e te parabenizo por este grande dia! Abraço afetuoso de todos nós!"



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