Emicida e Evandro Fióti contra o óbvio da história

Por Mariana Belmont, em 26/08/2021, no Ecoa/UOL.



Eu tenho um punhado de textos sobre as coisas que o Emicida faz no mundo e fala sobre e para o mundo. Eu já passei do limite, mas como limite não existe, eu sigo escrevendo. Uma semana Martinho da Vila, outra Emicida, o que será que a próxima me destina?


"Tudo o que a gente conhece - da filosofia ao k-pop, das pirâmides do Egito a um prato de comida, de um grão de areia até todo conhecimento já produzido pela humanidade - equivale, aproximadamente, a 4% de tudo que existe no universo. O 96% restante é composto por matéria e energia escura, ou seja: temos mais coisas por conhecer do que tudo que já conhecemos ao longo da história", e assim começa a série documental "O Enigma da Energia Escura", que estreou na semana passada, no GNT.


Emicida e Fióti, irmãos fazendo revolução. Vocês já viram o abraço desses dois no final da gravação do show "Amarelo" no Teatro Municipal? Aquele abraço que agarra o mundo inteiro, carregado de amor e respeito. Tudo sempre sobre quem veio antes, muito antes de qualquer um de nós nesse Brasil de hoje, na minha vida ou na redação do UOL.


Eu tô há semanas lendo Edson Cardoso, tanto que na coluna da última semana, citei um trecho de uma fala dele. Na verdade, nos últimos anos mergulhei em uma série de leituras que eu nunca tive acesso na escola pública. E eu vou citar o Edson de novo, porque toda vez que tenho contato com alguma coisa que ele escreveu, eu paro, penso que o mundo deveria ouvi-lo e faço spam para meus amigos.


Em um encontro organizado pelo Instituto Ibirapitanga, em 2018, que virou publicação e pode ser conferida na íntegra aqui, Edson Cardoso diz: "Eu acho que existe algo que não tem volta: é essa alegria que a gente está vendo na rua, nas crianças. O jeito como eles saem da escola, com o cabelo solto... andando na rua, a postura, a atitude. Há uma visibilidade nova, um se mostrar confiante, uma alegria de ser o que se é. De ser, de pessoa, assim. A gente não sabe ainda no que isso vai dar, isso não é black power, isso não é, como eu venho explicando, "aperte os punhos". Não, não é isso. É outra coisa, é outro contexto. A minha subjetividade pega algo assim: a alegria de ser, de se mostrar como se é, de se apresentar dessa maneira. É uma coisa muito forte. Acho que, até onde eu conheço, isso não tem volta. Esse mostrar-se dessa forma, essa paixão, acho que não tem volta, isso não tem volta. Pelo que eu estou entendendo, é algo muito forte, muito forte, muito forte, na rua, nas crianças".


Leio esse pedaço e penso também no Emicida e no Fióti, acredito que esse mundo que "Não tem mais volta" já é um dos sintomas do trabalho primoroso desses dois irmãos. Imagina só fazer e escrever a história, trazendo, reverberando e dando novas formas ao legado ancestral de quem veio e lutou antes? Ce é loko!


Assisti ao primeiro episódio animada, fotografando meus amigos passando na tela, uma lista enorme. Ouvir Sueli Carneiro é sempre uma benção e um privilégio, quisera eu pudesse ter lido e conhecido suas contribuições para o país em alguma aula do ensino médio? Professor Hélio Santos sempre nos lembrou que não se faz nada sozinho — toda a luta pelos direitos da população negra foi feita em coletivo, com o movimento negro organizado.


O "Enigma da Energia Escura" é um encontro de passado, presente e futuro. Com criação, produção e coração de quem precisa contar histórias e projetar novos futuros, com menos desigualdade social, menos genocídio do povo negro e mais horizontes possíveis de sonhos de vida e abundância.


Eu sou fã, vocês sabem, meus amigos sabem e acho que a minha editora aqui sabe também. Em toda oportunidade que eu puder ler