Esse espelho generoso que vocês miram em minha direção

Gabriela Tunes


Eu, que nunca imaginei ser escritora, gostava mesmo era da leitura. Na infância, quando o corpo é todo flexível, ficava horas a fio de bruços com a cara enfiada em livros, em todos os tipos de livros, infantis, juvenis, adultos, romances, ficções científicas, coleções enciclopédicas, gibis e mais gibis. Arrisquei uns poeminhas aos seis anos, mas a vida, quando quer bater, não pergunta a idade, e, num nocaute desses, abandonei a ideia de escrever poemas.


Na adolescência, devorava páginas, e, nas crises de ansiedade que me acompanharam, desenvolvia comportamentos compulsivos de ler o mesmo livro dezenas de vezes. Assim, decorei trechos inteiros de Aldous Huxley e Isaac Asimov, venci três vezes os quatro volumes das Brumas de Avalon, li duas vezes “Assim Falou Zaratustra” e não entendi nada em nenhuma delas. Não gostava de escrever redações na escola, nunca quis ser amiga da caneta. Ninguém nunca chegou para mim e falou qualquer coisa sobre minha escrita. Até que, no terceiro ano do ensino médio, o professor de redação, de quem nunca esquecerei, perguntou a mim porque eu faria vestibular para Biologia e não para Letras. Eu não sabia.


Naquele ano, eu e uma amiga não aguentávamos mais apostilas de vestibular e, rebeldemente, combinamos de ler um livro por semana. Assim, ela me fez ler Stephen King, e eu a fiz ler Aldous Huxley. Li 56 livros no terceiro ano do ensino médio, o que, certamente, contribuiu para que o professor de redação me dirigisse aquela pergunta, após ler e corrigir vários textos meus.


Como temos a prerrogativa de sermos muito burros na adolescência, não segui o conselho do professor e fui cursar biologia. O vestibular da UnB de 1992 era bem menos concorrido do que o de hoje. Eu fui a única candidata, naquele ano, que alçou a nota máxima na redação. Os professores do colégio em que eu estudava, que faziam a prova do vestibular para soltarem o gabarito logo depois, tiraram nota mais baixa do que a minha na redação. Por eu ter sido a única, uma professora do Departamento de Letras, algumas semanas após sair o resultado do vestibular, conseguiu o meu telefone residencial, e me ligou dizendo que tinha lido a minha redação, e perguntando porque eu estava fazendo vestibular para Biologia e não para Letras. Eu não sabia.


Como, aos dezessete anos, temos a prerrogativa de sermos muito burros pela segunda vez, eu não segui o conselho da professora, de mudar de curso, e acabei me formando em Biologia. Eu lia artigos científicos e livros de Bioquímica, Biofísica, Fisiologia, Anatomia. Quando escrevia meus artigos e dissertações, enfiava lá uns adjetivos no último parágrafo, invertia um período, enfim, achava um lugar para uma palavra mais bela ou surpreendente. Fiz mestrado e doutorado, e, nesse último, os conteúdos de filosofia e sociologia me davam um pouco mais de liberdade para escrever. Meu orientador ensinou-me segredos preciosos da escrita na feitura da Tese.


Logo que terminei o doutorado, apareceu o Facebook, com aquele quadradinho que virava uma folha imensa onde eu podia botar a palavra que eu quisesse, a citação de um grande filósofo seguida por um palavrão, as gírias, os adjetivos, a porra toda cabia ali. Comecei a escrever tudo o que eu pensava. E muitas pessoas vieram me dizer para escrever livros, escrever em livros. Eu achava legal mas não fazia. Eu nunca tinha pensado nessa possibilidade.


Então, apareceu minha fada madrinha, uma Teresa, que todo dia jogava um pó de pirlimpimpim nas bobagens que eu escrevia no facebook, me dizendo para escrever um livro. Um dia, a Fada Madrinha meteu sua varinha de condão no post do Léo Bueno, e me marcou na postagem em que ele fazia a chamada para as pessoas escreverem contos sobre a quarentena. Eu já tinha uma ideia de um conto, fruto da bagunça mental de ter estudado biologia, filosofia, sociologia e ter sido leitora contumaz de Asimov. Então, a mágica começou. Eu escrevi, escrevi, escrevi. O conto ficou grande demais, mas o pessoal aceitou.


E o pessoal? Os autores do livro, a maioria até então desconhecidos para mim, fui descobrindo serem pessoas extraordinárias, escritores de pena pesada, pensadores de muita diversidade e conteúdo, pessoas que eu adorei ter conhecido e não quero perder o contato com elas nunca mais. Meu Facebook ficou muito melhor com essa galera, eu estou morrendo de orgulho de estar no livro junto com vocês. E tudo graças à MINHA FADA MADRINHA, Teresa Cristina Guimarães Teixeira, que me marcou naquele post.


Sobre o livro, trata-se de uma compilação de influências diversas, escritores muito diferentes e percepções também variadas sobre o período da quarentena. Então, temos humor, tragédia, drama, terror, filosofia, cotidiano, poesia, tudo muito bem construído e acabado, e alinhavado pelos temas ligados à pandemia e à quarentena e, obviamente, tendo como guia comum a luz do antifascismo que, nos dias de hoje, não pode ter outra expressão senão a do anti-bolsonarismo.


Então, ao menos para mim, trata-se de uma realização marcante, pois de um tempo marcante, e compartilhada por pessoas igualmente marcantes. Eu queria agradecer a todos, especialmente ao Léo Bueno, o organizador, que demonstrou cabalmente que a mais sólida organização pode ser realizada do modo mais livre, leve e humano possível. Quem não conhece o cara não consegue ter a noção de como ele consegue unir esses elementos todos. Eu queria dar um abraço em cada uma dessas pessoas que escreveram esse livro comigo. Eu tenho CERTEZA de que farei isso um dia.


No mais, queria agradecer minha fada madrinha, que transformou minha abóbora em carruagem, me carregou para um mundo mágico de palavras e imaginações, que me fez virar uma escritora-relâmpago, algo que eu jamais havia imaginado. Obrigada, Teresa, sua varinha de condão me fez realizar um sonho que eu nem sabia que poderia sonhar. Se eu fosse a Cinderela, esse livro era meu sapatinho de cristal, que eu ganhei de você.


Queria também agradecer a todo mundo que lê as coisas que eu escrevo, que comenta nas minhas postagens, que me dá força e apoio, que me bota para frente e para cima nesse mundo cão. Pode parecer bobagem, mas minha vida mudou muito por causa dessas coisas, minha percepção de mim mesma se transformou radicalmente por causa desse espelho generoso que vocês miram na minha direção. Obrigada demais!


Quem quiser comprar o livro, tem no site da Editora TERRA REDONDA - www.terraredondaeditora.com.br (eu nunca vou deixar de mencionar o quanto eu amo o nome dessa Editora).


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Gabriela Tunes é bacharel em Biologia, mestre em Ecologia e doutora em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília. Apesar dos títulos, gosta mesmo é de música, letras e filosofia.

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