"liberdade mais cruel", de Raquel Lima, é eleito o melhor poema português no Prêmio aRi[t]mar 2020

Atualizado: Set 25

Poema faz parte do livro Ingenuidade Inocência Ignorância vendido com exclusividade no Brasil pela Terra Redonda


No próximo sábado, 26 de Setembro, em Santiago de Compostela, serão entregues os Prêmios aRi[t]mar da música e da poesia galego-portuguesas 2020. O poema "liberdade mais cruel", de Raquel Lima, foi eleito o melhor poema português de 2019,


Esse é um dos 24 poemas que compõem o livro Ingenuidade Inocência Ignorância (BOCA - audiolivros, audiobooks, livres áudios e Animal Sentimental, 2019), vendido no Brasil pela Terra Redonda Editora.


Depois de receber a notícia do prêmio, Raquel afirmou em entrevista que "esse poema nasceu das vísceras e foi dos partos mais revoltados". Leia a íntegra abaixo.


Também receberão o prêmio: Carlos da Aira (melhor poema galego), António Zambujo (melhor canção portuguesa), Sabela (melhor canção galega) e Georgina Benrós de Mello (prémio especial do jurado à Embaixada da amizade galego-lusófona).



Raquel Lima (Lisboa, 1983) é Licenciada em Estudos Artísticos, com especialização em Artes Performativas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Poeta, performer e arte-educadora com um percurso de dez anos de poesia essencialmente oral, movimento que a levou a mais de uma dezena de países na Europa, América do Sul e África. É doutoranda do Programa Pós-Colonialismos e Cidadania Global do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. O seu livro de estreia, Ingenuidade Inocência Ignorância, reúne 24 poemas escolhidos de uma década de escrita.


Leia agora a entrevista de Raquel Lima publicada no portal do Prêmio aRi[t]mar

- O que representa para ti receberem este prémio aRi[t]mar? - Eu acredito que representa o resultado de uma relação que se foi fortalecendo com a Galiza desde a minha participação em diferentes eventos em 2018, nomeadamente o festival Alguién que Respira no Teatro Principal de Santiago de Compostela, no evento Os Três Tempos da Poesia, Música, Pintura, Baile no Verbum Museum em Vigo, e, finalmente o Festival Feminista 85C também em Vigo. Penso que a minha nomeação parte dessa relação de familiaridade que permitiu que a minha poesia fosse ouvida e lida por um público galego sempre muito interessado e acolhedor. - Por que achas que o público gostou tanto de “Liberdade mais cruel”? - O poema Liberdade mais cruel é muito visceral, e não são muitos os meus poemas que vêm desse lugar flagrante da inquietude, do desequilíbrio, da assumpção das feridas, das fragilidades mais profundas escancaradas literalmente, e acho que o público talvez tenha gostado dessa sinceridade, não sei... - Qual acha que é a situação atual da poesia em Portugal? - Acho que a poesia contemporânea portuguesa se encontra num momento muito rico na sua versatilidade, diversidade de estilos, géneros e vozes. Estou mais atenta à escrita de mulheres e tem sido um enorme prazer acompanhar poetas/escritoras como a Gisela Casimiro, a Matilde Campilho, a Judite Canha Fernandes, entre outras. - Que vais oferecer na gala aRi[t]mar? - Espero que a gala aRi[t]mar seja uma oportunidade de troca e celebração daqueles e daquelas que se constroem, contemplam e lutam com palavras e que sirva para que sigamos o caminho com mais confiança e seriedade. E nesse sentido, resta-me oferecer poesia, sorrisos e gratidão.


A seguir, veja, ouça e leia liberdade mais cruel, por Raquel Lima


Gravado em 17 abril de 2019 na Casa do Largo – Pousada da Juventude de Setúbal


liberdade mais cruel


a minha liberdade sempre foi a mais cruel

a que deriva na alvorada

adormece ao relento

à beira da estrada, a da casa ocupada

a do amor inquieto

rebenta tudo pelo caminho

a esbanjadora

a minha liberdade sempre foi a mais cruel

explode em papel A2 dobrado em 3

diminui-se, martiriza-se

oprime-se, fragiliza-se

liberdade da diva frustrada

que não conta nada

além do arrepio brando do seu tamanco

de salto alto, ingénuo canta

uma regra de régua e esquadro

de ecrã e teclado

é a liberdade da puta amedrontada

que sente tudo mas não sente nada

numa paranóia da encruzilhada

de pensamentos bloqueados na

vontade de ser recta e não incerta

ter um caminho considerado

aplaudido pelos vizinhos

compatriotas desconhecidos em terra alheia

ser pessoa, ser poeta

liberdade cruel e ausente

a mais frustrada

liberdade revoltada

que apenas nua existiria

exposta ao gatilho, à bala, à guilhotina

liberdade na balada, na insónia, no castigo

liberdade sem religião, nem cura nem terço, sem abrigo

liberdade de abraçar os demónios mais cruéis

porque o segredo da liberdade é deixá-los passar por aqui.

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