Marcelo Levy interpreta o poema "Palavrear", de Ricardo Aleixo

No Sarau VQQ em mulheragem a Thais Sauaya, realizado em 11/6, Marcelo Levy interpretou o poema que dá título ao livro "Palavrear" de Ricardo Aleixo, poeta e performer mineiro, publicado pela Todavia.



Minha mãe me deu ao mundo e, sem ter mais o que me dar, me ensinou a jogar palavra no vento pra ela voar. Dizia: “Filho, palavra tem que saber como usar. Aquilo é que nem remédio: cura, mas pode matar. Cuide de pedir licença, antes de palavrear, ao dono da fala, que é quem pode lhe abençoar e transformar sua língua em flecha que chispa no ar se o tempo for de guerra e você for guerrear ou em pétala de rosa se o tempo for de amar. Palavra é que nem veneno: mata, mas pode curar. Dedique a ela o cuidado que se deve dedicar às forças da natureza (o bicho, a planta, o ar), mesmo sabendo que a dita foi feita pra se gastar, que acaba uma, vem outra e voa no seu lugar”.

Ainda ontem, lá em casa, me sentei pra conversar com as minhas duas meninas e desatei a lembrar de casos que a minha mãe se esmerava em contar com luz de lua nos olhos enquanto cozia o jantar. Não era bem pelo assunto que eu gostava de escutar aquela voz que nasceu com o dom de se desdobrar em vozes de outras eras que tornarão a pulsar sempre que alguém, no vento, uma palavra jogar. Gostava era de ver a voz dela inventar mundos inteiros sem quase nem parar pra respirar e ganhar corpo e fazer minha cabeça rodar como roda, ainda hoje, quando, pra me sustentar, eu jogo palavra no vento e fico vendo ela voar (jogo palavra no vento e fico vendo ela voar)



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