Por causa da cor

Por João Sette Whitaker, em seu blog


Com a volta presencial das aulas da minha filha (que medo), parei com ela, voltando da casa dos avós no comecinho da noite, em um supermercado que me pareceu vazio, para comprar as coisas do lanche da escola. Era um St. Marche, esses mercados chiques em que você desembolsa no mínimo dez reais para levar para casa uma baguete, mas como estava vazio e no caminho, era o que tínhamos.


Enquanto rodava as prateleiras atrás de um pão de leite e suquinhos de caixinha, minha filha, de nove anos, começou a fazer o que uma criança de nove anos faria num supermercado vazio: começou a correr pelos corredores, se esquivando de mim e de quem eventualmente aparecesse ali, brincando de espiã, de esconde-esconde, o que fosse. Após alguns minutos, estranhei de ver o segurança do mercado passar por mim, meio esbaforido, máscara com nariz de fora, indo e voltando, em passos rápidos. Percebi na hora que ele estava encafifado com minha filha. Acho que lhe dei um certo alívio quando disse, na hora: “é minha filha, viu?”. Ele me deu uma resposta simpática: “ah bom, me desculpe, é que ela tava correndo pra lá e pra cá, se escondendo de mim”.


Comentei com ele que crianças são assim. Correm pra lá e pra cá mesmo e, ainda bem, se divertem. Em suma, são crianças. Talvez ele estivesse pensando que ela teria colocado alguma guloseima no bolso e, assustada com sua presença, estava fugindo dele no supermercado? Estranho, pois ela a toda hora me chamava, mesmo de longe, conversava comigo, rindo, sem a menor cara de quem estivesse aprontado alguma.

Ah, não falei até agora, pois isso, no meu entender, não deveria ter a menor importância nesta historinha. Minha filha é negra.


Mas aí vem a questão: se minha filha fosse loirinha de olhos azuis, correndo e rindo pelos corredores de um supermercado vazio, brincando de esconde-esconde com o pai e com o segurança, a única pessoa ali presente além de um ou dois outros clientes, o rapaz teria tido a mesma reação? Acho que não preciso responder.

Minha filha percebeu o diálogo, e me perguntou por que ele estava falando comigo. Expliquei que ele estava intrigado com ela correndo dele, e que eu achava que ele não tinha percebido que ela era minha filha. A resposta dela foi rápida e simples: “claro que não né pai, por causa da cor”. A resposta esconde uma fatídica verdade, que ela já assimilou muito bem: na nossa perversa sociabilidade, o privilégio de ser “de classe alta” não supera o “desconforto” da cor. Para ela, mesmo que isso nunca tenha sido explicitado, muito pelo contrário, está posto que, de alguma forma muito perversa, aquele não “deveria ser” o seu lugar. Como diz o sociólogo Kabengele Munanga, a “geografia do corpo” sempre falará mais alto.


Lembrei na hora do garoto de 17 anos, negro, deixado nu e torturado por 40 minutos em um supermercado da Zona Sul, em setembro de 2019, porque tinha furtado um chocolate. Lembrei também do menino de 10 anos que, em 1999, pedia esmola na frente do Pão de Açúcar da Afonso Brás, também na Zona Sul, e que um segurança prendeu por 20 minutos na câmara fria do supermercado. Os limites tênues que fazem com que uma situação possa virar tragédia são definidos por detalhes: no caso, um pai, branco, de classe alta, que impôs sua “superioridade” social ao segurança. Mesmo negra, minha filha se beneficiou desse privilégio. E se fosse uma menina vindo da rua, afastando-se da sua mãe no farol, espreitando-se do segurança para entrar naquele supermercado? Nesses dois casos, os seguranças envolvidos foram punidos. A corda se rompe na ponta, onde é mais frágil. Seguranças, muitas vezes eles mesmos negros, são corretamente punidos pelos seus desvios, mas a sociedade toda, que formou suas cabeças para o preconceito, essa sempre continuará desviada.


Morei até os 15 anos na França, como filho de exilados. Uma vez, lá pelos 13 ou 14 anos, ao voltar para casa no último trem de subúrbio da noite, junto com meu amigo Reza, filho de exilados iranianos, fomos interpelados por um bando de punks de extrema-direita (nem todos os punks eram de extrema-direita, diga-se). Como não tínhamos a feição clara de europeus, ficaram nos azucrinando durante algum tempo, perguntando o que estávamos fazendo lá, na terra deles, para depois saírem do trem rindo e muito orgulhosos de seu feito. Um bando de imbecis, racistas com orgulho. Nos EUA, o confronto aberto com os negros faz com que, no Sul, um sujeito racista não tenha o menor pudor em explicitar seu preconceito e chamar alguém de “nigger”. Na África do Sul do Apartheid, a institucionalização do racismo tornou-se política de Estado, por décadas. Tudo muito explícito, o que não torna as coisas melhores, apenas diferentes.


É errado, portanto, achar que naqueles países não há racismo, ou que o desenvolvimento capitalista trouxe algum tipo de equidade racial, embora tenha, de fato, permitido algumas conquistas, como as muitas políticas afirmat