Um contador de histórias

Autor de importantes obras sobre Dom Paulo Evaristo Arns e sobre a atuação da imprensa brasileira durante a ditadura, Ricardo Carvalho faleceu neste domingo, 20 de junho, em São Paulo.


Por Giuliano Galli, no site do Instituto Vladimir Herzog



Um contador de histórias, como ele mesmo gostava de se definir, Ricardo formou-se em jornalismo nos anos 70 e começou sua carreira como repórter na “Folha de São Paulo”. Depois, foi diretor de jornalismo da TV Cultura, editor-chefe dos programas “Bom dia, São Paulo” e “Globo Repórter”, da TV Globo, e participou de inúmeros programas em várias outras emissoras de TV, como Futura, TVE, SBT e Bandeirantes.


Foi um dos primeiros jornalistas a tratar a questão ambiental com a devida atenção na imprensa brasileira. Nos anos 80, criou uma produtora dedicada exclusivamente à realização de documentários, programas de TV e outros vídeos sobre temas como meio ambiente, sustentabilidade e biodiversidade.


Com o tempo, descobriu uma nova vocação: a de escrever biografias. É o autor, por exemplo, do livro “Maestro! A volta por cima de João Carlos Martins”, que inspirou o filme “João, o Maestro”, sobre um dos mais importantes regentes da música brasileira.


Foi com esta faceta de biógrafo que Ricardo Carvalho deu aquela que, provavelmente, tenha sido sua maior contribuição para o jornalismo e para a sociedade brasileira: contar, com uma impressionante riqueza de detalhes, a história de Dom Paulo Evaristo Arns.


A interminável pesquisa de Ricardo sobre a vida do arcebispo emérito de São Paulo rendeu dois livros: “O cardeal e o repórter”, publicado em 2010 e vencedor do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos; e “O cardeal da resistência”, publicado em 2013; além de um documentário: “Coragem! As muitas vidas de Dom Paulo Evaristo Arns”, lançado em 2017 e produzido em parceria com o Instituto Vladimir Herzog.


Dom Paulo Evaristo Arns e Ricardo Carvalho com o livro “O Cardeal e o Repórter”, vencedor do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em 2010 .


A relação com o Instituto Vladimir Herzog, no entanto, começou muito antes. Ricardo foi figura importante na criação do IVH, em 2009, e compôs o primeiro grupo de conselheiros da instituição. Mais do que isso, foi um dos idealizadores do “Resistir é Preciso”, projeto que conta a trajetória da imprensa alternativa que atuou no Brasil durante a ditadura militar e que fez com que o IVH ganhasse notoriedade e relevância nacional.


Nos últimos anos, Ricardo Carvalho era diretor da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e representava a instituição na Comissão Organizadora do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.


Ricardo ajudou a escrever a história do jornalismo brasileiro e nela foi inscrito. Foi um jornalista raro, com vocação para contar histórias, compromisso com o interesse público e determinação em lutar pelos direitos humanos.


Frequentemente, por sermos o país que somos, nos vemos propensos a certos esquecimentos. Ricardo Carvalho, no entanto, jamais será esquecido. Sua trajetória de vida e, principalmente, seu amor pelo jornalismo continuarão a nos inspirar a seguir lutando. Sempre!


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A Terra Redonda Editora está em luto pela perda do querido amigo Ricardo Carvalho. Em 2020, publicamos uma edição atualizada e ampliada de seu premiado livro "O Cardeal e o Repórter".

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